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Onde ver obras de Giambattista Pittoni: um céu encoberto e um templo perdido

Alguém cobriu Deus Pai com tinta numa Natividade de Pittoni. Seguir suas obras de Londres a Veneza e Paris permite recuperar figuras apagadas, encomendas perdidas e até um nome esquecido.

2 de novembro de 2026 · 7 min de leitura · Redação do ART WIKI

O céu sumiu de A Natividade com Deus Pai e o Espírito Santo no século XIX. Alguém encobriu as figuras superiores com tinta, deixando a família embaixo sem a companhia celeste. A limpeza de 1959 as trouxe de volta. Uma fotografia anterior, conservada no arquivo Federico Zeri, registra a outra aparência: diante da mesma tela, o visitante teria visto uma história religiosa diferente.

Londres: José dorme durante a revelação

Duas formas de atenção convivem na Natividade da National Gallery. José adormeceu; Maria cuida de um bebê que se remexe. Acima, o Pai e a pomba completam a Trindade celeste. Embaixo, pais e filho formam sua correspondência terrena. Não se conhece o destino original da pintura. As alterações do século XIX talvez tenham facilitado sua venda, mas o motivo é incerto.

Entre na cena pelo cansaço de José. Ele aproxima uma composição cuja teologia poderia parecer distante. Um adulto dormindo junto a um bebê inquieto dispensa explicações. Depois, percorra a distância entre a família e as figuras superiores. Saber da repintura torna esse intervalo menos evidente: o que hoje parece inseparável já pôde ser retirado por decisão de um proprietário posterior.

The Nativity with God the Father and the Holy Ghost
As figuras celestes foram recuperadas em 1959. Uma fotografia antiga registra a tela antes da limpeza. Ver a obra →

Veneza: uma doação que mudou de autor

A encomenda da Anunciação de Pittoni, nas Gallerie dell’Accademia, nasceu das obrigações da recém-criada academia veneziana com a própria instituição. Em novembro de 1756, o tema coubera a Tiepolo; Pittoni deveria pintar São Marcos. A distribuição mudou. Um pagamento de tela, em março de 1757, liga Pittoni à Anunciação, entregue em fevereiro de 1758. Os acadêmicos doavam o trabalho, enquanto a instituição custeava os materiais.

Na origem, a Anunciação destinava-se à sala de reuniões da academia no Fonteghetto della Farina. Depois apareceu na feira da Sensa em 1777, dez anos após a morte de Pittoni. Não é numa igreja que se explica esse percurso. O encontro sagrado também pertencia a uma sala onde pintores tratavam de assuntos institucionais. Entre os espectadores havia colegas que sabiam quantas decisões e revisões custava um gesto pintado.

Em 1758, Pittoni sucedeu Tiepolo na presidência. É fácil esquecer esse cargo quando se conhece a pintura veneziana pelos nomes que hoje dominam os museus. Aqui, a obra da própria academia oferece motivo para parar diante do colega que assumiu a cadeira depois de Tiepolo.

Annunciation
Pintada para a academia veneziana em 1757 e entregue em 1758, a Anunciação pertencia à sala de reuniões. Ver a obra →

Veneza: a pequena tela sobrevive à grande

Outra tela da Accademia, Crasso saqueia o Templo de Jerusalém, sobreviveu à encomenda cuja pintura definitiva se perdeu. Em 1743, Francesco Algarotti escolheu Pittoni para fornecer uma obra à galeria de Augusto III, em Dresden. A pintura veneziana é o modelo. Nela, soldados abrem um baú enquanto vasos sagrados são recolhidos num tecido. A viga de ouro oferecida para salvar o tesouro do templo não conseguiu impedir o saque.

Manusear objetos é uma forma de exercer violência aqui. Siga o baú e os vasos antes de tentar identificar cada pessoa na multidão. Um roubo dessa dimensão exige carregar, embrulhar e transportar; as ações corriqueiras convivem com o confronto. A pequena tela acabou sendo a testemunha sobrevivente de um empreendimento muito maior.

Também havia compradores para composições pequenas. A oficina de Pittoni repetia temas bem-sucedidos, e versões acabadas de seus projetos preparatórios podiam se tornar quadros de colecionador. Isso ajuda a entender por que conservar um modelo. Depois de cumprir sua função prática na encomenda, ele podia ganhar outra vida num gabinete.

Paris: duas prisioneiras, decisões opostas

Formam um par no Louvre A continência de Cipião e Políxena diante do túmulo de Aquiles. Ambas tratam do poder do vencedor sobre uma prisioneira. Na narrativa de Tito Lívio, Cipião devolve uma jovem ao noivo e recusa o resgate oferecido pela família. A história de Políxena segue a direção contrária: Aquiles, já morto, exige o sacrifício da princesa troiana.

Mesmo vencida, a Políxena de Ovídio resiste. Prefere a morte à escravidão. Ao colocar essa atitude ao lado da decisão de Cipião, fica difícil ler o par como decoração clássica inofensiva. Um governante abre mão da posse de uma pessoa; outra exigência se estende para além do túmulo. As cativas tornam visíveis as escolhas dos poderosos.

Registradas em 1791 sob o nome de Sebastiano Ricci, as duas pinturas entraram no museu público em 1793. Cristo entregando as chaves do paraíso a São Pedro recebeu a mesma atribuição errada. Um artigo publicado em 1912 discutiu a devolução dessas obras do Louvre a Pittoni. Recuperá-lo exigiu encontrar suas pinturas dentro da reputação de outros artistas.

Comece os preparativos da viagem consultando diretamente os museus sobre as duas obras venezianas ou a Natividade de Londres. As três pinturas do Louvre mencionadas aqui não estavam expostas na nossa consulta do outono de 2026. Antes de reservar uma tarde parisiense a Pittoni, é preciso perguntar especificamente por elas: pertencer ao acervo não basta para que uma obra possa ser vista.

Na capa: Annunciation — Dzhovanni Battista Pittoni. Didier Descouens · Public domain · Wikimedia Commons