Perdidas e roubadas

O Monet roubado em Marshalltown que reapareceu numa caixa de correio em Iowa

O agente postal Charles Polley achou, primeiro, que alguém tinha jogado lixo no correio. O que ele encontrou devolveu um Monet desaparecido à história de uma pequena cidade de Iowa, sem explicar quem o tinha levado.

2 de novembro de 2026 · 8 min de leitura · Redação do ART WIKI

Charles Polley recolhia a correspondência em Le Grand, Iowa, em 8 de março de 1988, quando achou algo que de início parecia lixo. Era uma tela com barcos de pesca. Ele se lembrou de que a polícia procurava um quadro roubado na vizinha Marshalltown e avisou os responsáveis do correio. Uma coleta de rotina tinha produzido uma possível resposta para um roubo de arte de um ano antes.

O quadro desaparecido era Barcos de Pesca diante das Falésias de Étretat, de Monet. Ele tinha sido recortado da moldura no Fisher Community Center em 19 de março de 1987. A reaparição ofereceu um desfecho quase modesto demais para o nome na tela. Nenhuma operação internacional, nenhum quarto secreto na mansão de um colecionador. Um agente postal tinha olhado duas vezes para uma coisa deixada numa caixa de coleta.

Les Barques de Peche Devant Les Falaises D'Etretat
Barcos de Pesca diante das Falésias de Étretat. Roubado em Marshalltown em 1987, o Monet reapareceu numa caixa de coleta do correio ali perto em 1988. Ver a obra →

O alarme funcionou, e a tela foi embora mesmo assim

Um grupo de teatro ensaiava quando o quadro foi roubado. O zelador atendeu ao alarme e viu o ladrão fugindo, mas não conseguiu detê-lo. Era um prédio comunitário em uso à noite, e não um museu vazio à espera de um assaltante. A invasão aconteceu no meio de outra atividade, perto o bastante para alguém ver a fuga e tarde demais para impedi-la.

O chefe de polícia James Wilkinson disse que os policiais chegaram ao centro no mesmo minuto do alarme. Uma reportagem da Associated Press da época deixou clara essa rapidez. O sistema chamou a atenção para o roubo, mas não segurou o quadro na parede. Recortar a tela deixou a moldura para trás e transformou um objeto feito para ser pendurado em algo mais fácil de carregar.

As autoridades locais achavam que vender o quadro seria difícil. Steve Ward, da Câmara de Comércio que administrava o centro, duvidava que fosse fácil achar um comprador. Peg Buckley, bibliotecária do Des Moines Art Center, lembrou como o roubo seria amplamente reconhecido. Em 20 de abril de 1987, a seguradora já tinha anunciado uma recompensa de 17.500 dólares por informações que levassem à devolução do quadro em bom estado.

Por que havia um Monet no centro comunitário

Bill Fisher tinha feito do colecionismo parte do seu compromisso com Marshalltown. Terceira geração na presidência da Fisher Governor Company, ele e a mulher, Dorothy, apoiaram por décadas a vida cultural da cidade, incluindo a música e o teatro. Os quadros deles faziam parte desse esforço maior. A presença de um Monet num prédio usado pela população local era uma escolha deliberada sobre acesso, e não um acaso improvável da geografia.

Na época do roubo, o quadro estava pendurado no centro comunitário havia quase trinta anos. Isso torna a perda diferente de um roubo logo depois de uma compra espetacular. Uma paisagem pode virar coisa conhecida sem perder importância. Quem entrava para um ensaio ou outro evento podia encontrar a pintura francesa como parte da vida comum do prédio, sem fazer uma viagem especial a um museu de cidade grande.

Crianças carregando telas pela praia

Em Étretat, o processo de fazer um quadro assim não tinha nada de parado. Guy de Maupassant descreveu Monet andando pela praia com crianças que carregavam várias telas. Conforme a luz mudava, ele deixava uma de lado e pegava outra. O relato trata do método de trabalho dele no litoral, não de uma sessão comprovada para este quadro específico, mas devolve algum movimento às falésias que uma paisagem acabada pode fazer parecer permanentes.

O mar podia interromper o trabalho de forma mais brusca. Numa visita em 1885, uma onda inesperada arrastou Monet e o seu material de pintura para a água. Esse episódio, lembrado no texto do Metropolitan Museum sobre o trabalho dele em Étretat, pertence ao mesmo litoral. Anos depois, num prédio de Iowa, uma tela emoldurada podia parecer inteiramente assentada e segura. O tema dela era um lugar onde o pintor precisava ficar de olho na próxima onda.

Les Barques de Peche Devant Les Falaises D'Etretat
O tema litorâneo liga o quadro ao trabalho repetido de Monet em Étretat. A descoberta no correio devolveu uma tela específica, em vez de uma vista qualquer de um lugar conhecido. Ver a obra →

O tenente da polícia queria um especialista

O tenente Darrell Templeton, que tinha comandado a investigação, a princípio mal acreditou na descoberta. Achava que era o Monet desaparecido, mas pediu à seguradora, a St. Paul Fire and Marine, que mandasse um especialista em arte para confirmar a identificação. Por isso a primeira notícia falava de uma provável recuperação. Relatos posteriores sobre a coleção registram a volta do quadro, enquanto a identidade do ladrão continuou sem solução.

Templeton sugeriu que o remorso poderia explicar o depósito na caixa de correio. Era uma possibilidade, não uma confissão. A tela podia provar que alguém a tinha deixado ali; não podia revelar o motivo dessa pessoa. A história comporta o alívio sem precisar de um ladrão arrependido para se completar. O que importava de imediato era que o quadro tinha escapado do futuro, qualquer que fosse, aberto pelo corte na moldura.

Se esta história levar você a Marshalltown, pergunte ao Fisher Art Museum sobre a recuperação e sobre o acesso ao Monet antes de organizar a viagem. A história dos roubos de uma coleção pode ser uma boa porta de entrada para conversar sobre as pessoas que a formaram. Reserve tempo para essa conversa, além do quadro que você foi procurar.

Na capa: Les Barques de Peche Devant Les Falaises D'Etretat — Claude Monet. FBI National Stolen Art File