Guia de cidade
Museus e arte em Orléans: Le Nain, Bourdon e Joana d’Arc em um dia
Uma princesa perdida ajudou a reconstruir uma cidade bombardeada; uma pintura proibida ganhou público na sede de um jornal. Orléans merece um dia dedicado às vidas improváveis de suas imagens.
2 de novembro de 2026 · 7 min de leitura · Redação do ART WIKI
A pintura já estava na parede quando veio a ordem de retirá-la. Na véspera do Salão de Paris de 1885, A Apoteose da Canalha, de Louis-Maurice Boutet de Monvel, tornou-se politicamente explosiva demais para a exposição. O Le Figaro logo a mostrou na sede do jornal. A tentativa de silenciar trouxe outra plateia. Hoje, a tela incômoda pertence ao Museu de Belas Artes de Orléans, cidade natal do pintor, e abre a visita com uma discussão inesperada.
Dedique um dia inteiro a Orléans, com o Belas Artes no centro e a Catedral de Sainte-Croix e o Hôtel Cabu no caminho. As três paradas oferecem maneiras diferentes de reconstruir o passado. Um quadro pode ser redescoberto sob título errado, uma catedral dá rosto oitocentista a uma heroína medieval, uma casa bombardeada volta a ser museu. Há o bastante para ver sem reduzir a cidade a intervalo entre castelos do Loire.
Uma princesa adormecida comprada com indenização de guerra
Um antiquário de Château-Thierry encontrou Baco e Ariadne por volta de 1954. Durante algum tempo, a obra apareceu numa galeria parisiense como Teseu Abandonando Ariadne, título que invertia a direção emocional da cena. Orléans a comprou em 1970 com recursos de indenização por danos de guerra. Um encontro do século XVII numa ilha mítica passou a integrar a recuperação de uma destruição bem real. A aquisição também ampliou a ideia do que os irmãos Le Nain podiam pintar.

Qual irmão segurou o pincel ainda se discute. Louis e Mathieu foram propostos, e o museu considera a possibilidade de várias mãos. O sobrenome familiar é a entrada mais segura. Ariadne dorme depois de ser abandonada por Teseu em Naxos. Baco chegou e parou, com a mão no peito. Não há o cortejo ruidoso esperado em torno do deus do vinho. Sua reação passa por um olhar e um gesto pequeno, quase cortês.
Lembre do título equivocado enquanto observa. Partida e chegada podem dividir a paisagem; a figura adormecida não explica qual acontece. Quando o homem se torna Baco, o abandono dá lugar ao início de outra ligação. A mulher, porém, ignora tanto nossa interpretação quanto a presença dele. Dê um minuto ao quadro antes de ler seu nome. É possível perceber primeiro a pausa e só depois encaixá-la no mito.
O resgate de Ifigênia, percebido tarde por uma mulher
No canto inferior direito de O Sacrifício de Ifigênia, uma mulher se curva de dor. Talvez seja Clitemnestra, mãe da vítima; a identificação é incerta. Sébastien Bourdon lhe dá um papel especialmente doloroso numa cena que já muda. Acima, Ártemis leva Ifigênia e a substitui por uma corça no sacrifício. O resgate começou, mas nem todos compreenderam. Um corpo pode continuar dentro da tragédia depois que a trama avançou.

O mito começa com um exército impedido de navegar até Troia. Agamêmnon precisa sacrificar a filha para obter ventos favoráveis; algumas versões a deixam morrer, outras concedem o indulto pintado por Bourdon. A composição diagonal separa quem está embaixo das figuras que sobem ao céu. Também separa o que sabem. Siga o movimento ascendente e volte à mulher enlutada. A legenda resume tudo numa frase, mas a pintura faz os personagens viverem momentos diferentes ao mesmo tempo.
Bourdon conhecia as muitas formas de uma carreira. Filho de um pintor e vidraceiro protestante, trabalhou em Roma, voltou a Paris e depois se tornou pintor da rainha Cristina, na Suécia. O museu de Orléans tem raízes numa instituição dirigida por Jean Bardin em 1799, ligada a uma escola gratuita de desenho onde copiar mestres antigos apoiava o ensino. Lembre dos alunos quando o tema histórico parecer remoto. Uma cabeça virada ou um joelho dobrado também era um problema que alguém podia aprender a desenhar.
Uma coroação que o Salão não tolerou
O trono de A Apoteose da Canalha, ou O Triunfo de Robert Macaire carrega um bêbado esfarrapado. Aos pés dele jaz uma mulher que personifica a França. Robert Macaire, criminoso vindo do teatro, supervisiona a coroação paródica enquanto o cúmplice Bertrand toca tambor. Pintada em 1884, a cena olha para a queda de Luís Filipe em 1848, mas dirige sua hostilidade à república do tempo de Boutet de Monvel. É um ataque partidário, e o desprezo pertence ao autor.

Numa reprodução, a obra pode parecer charge; a tela tem 4,3 metros de altura. A escala muda tudo. O espectador precisa erguer os olhos para uma cerimônia feita para repelir. Um argumento monarquista ocupa o espaço normalmente reservado a um triunfo público. A intervenção governamental acrescentou uma ironia não planejada: o ataque à república virou disputa sobre a capacidade dela de tolerar a imagem de um inimigo. A exposição alternativa do Le Figaro tornou visível o desacordo.
Boutet de Monvel também é lembrado por ilustrar livros infantis, segunda carreira surpreendente ao lado da imagem raivosa. Orléans adquiriu depois mais de mil fotografias do ateliê familiar, junto de paletas, pincéis e uma escada de ateliê usada por pai e filho. Os objetos devolvem as pinturas enormes ao trabalho de fazê-las. Alguém precisava de um degrau alto, uma fotografia nítida e tinta ao alcance. A escala começa no equipamento antes de virar retórica.
Joana no vidro e uma casa refeita depois das bombas
Atravesse até Sainte-Croix e veja outro século contar uma história nacional. Os dez vitrais de Joana d’Arc, de Jacques Galland e Esprit Gibelin, foram feitos entre 1893 e 1897. Os trajes medievais pertencem a uma reconstrução oitocentista cuidadosamente pesquisada. Na Segunda Guerra Mundial, os vitrais foram retirados, precaução que os salvou dos bombardeios que danificaram a catedral. Sobreviveram por serem desmontados e levados embora, fato fácil de esquecer quando o vidro colorido parece inseparável da igreja.
A sequência vai das vozes em Domrémy à entrada em Orléans, aos combates nas Tourelles, ao cativeiro e à morte. Escolha dois episódios vizinhos e acompanhe a posição de Joana entre os demais. Numa cena, comanda a atenção; na seguinte, se submete às decisões alheias. Depois das heroínas disputadas ou resgatadas do museu, essa mudança de poder dá aos vitrais mais a dizer que uma sucessão de ilustrações patrióticas.
Siga ao Hôtel Cabu, construído por volta de 1550 para o advogado Philippe Cabu. A fachada do pátio sobrepõe três ordens clássicas. Bombardeios de junho de 1940 danificaram gravemente a casa, e mais de vinte anos se passaram até a reabertura do museu. A arquitetura dá peso físico aos recursos de reparação que ajudaram a comprar o Le Nain. Suba com os olhos pelos níveis de decoração talhada e depois guarde tempo para descer a pé até o Loire.
Escolha uma quinta para ter folga: o Belas Artes fica aberto até as 20h. Os dois museus fecham às segundas e em 11 de novembro; no outono, o Hôtel Cabu abre às 13h. Um ingresso combinado cobre os museus municipais por um dia. Consulte diretamente se uma tela motivar a viagem. Os mezaninos do século XIX também têm uma restrição de acessibilidade, portanto quem precisa de acesso sem degraus deve organizar o percurso com a equipe. Use a caminhada pelo rio como intervalo quando os olhos pedirem descanso.
Na capa: Bacchus et Ariane — Le Nain, Famille. RMN-Grand Palais; Ministère de la Culture (France), base Joconde
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